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De Sedentário a Maratonista

A motivação também se treina!

Dom | 21.04.19

Triatlo Longo de Setúbal, ou: quando tudo o que fazes nos treinos se reflete na prova.

José Guimarães

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Bem sei que é um título longo. O post também é. Mas é a única forma de bem descrever toda a sucesão de acontecimentos até ao Triatlo de Setúbal. O que correu melhor e o que correu... menos melhor.

Também sei que faz hoje 1 semana que foi a prova. Acontece que, naqueles 2 ou 3 dias depois da mesma, há relatos e fotografias mais do que suficientes para ilustrar como tudo correu... ou, neste caso, como correram, pedalaram e nadaram os 800 atletas que alinharam no Parque Urbano de Albarquel, à partida do Setúbal Triathlon. E como é tanta a informação, até prefiro esperar um pouco e fazer uma reflexão um pouco mais tardia, mas mais fria e ponderada. É certo que o trabalho do dia-a-dia e a preguiça que se abate num pós-prova também contribuiram para este relato só sair agora. Mas pronto, agora com este afastamento emocional maior, vou tentar analisar tudo o que contribuiu para que a manhã do dia 14 de abril de 2019 se tivesse passado como passou. E que, no meu caso... até não me posso queixar! ;)

 

Os treinos

Treinei que nem um desalmado! Mas treinei pouco. Para começar, só meti na cabeça que tinha que treinar a sério já estávamos em 2019... e não foi ao início do ano. Só comecei a treinar a sério lá para o fim de fevereiro. Mas o que é que significa isto de treinar a sério? Se até aqui ia correndo, nadando e pedalando quando me apetecia, treinar a sério significa fazê-lo com os ciclos adequados, em que se sabe o que se está a fazer, para quê, mas principalmente porquê. No meu caso é como dar treinos, mas a mim próprio.

Como isto de ter várias profissões atrapalha um bocado e - confesso - apelou mais à bandalheira nos poucos tempos livres tive, cedo percebi que precisava de quem me impusesse algumas regras. Precisava de um treinador para o treinador. É que isto de dar treinos a uns é uma coisa, e dar treinos a nós próprios é outra completamente diferente. E foi mais ou menos nesta altura que conheci o Sérgio Santos, no lançamento do seu projeto Ontrisports. E foi aqui que também conheci o Diogo Custódio, treinador de triatlo, que trabalha com o Sérgio e que aceitou treinar-me rumo ao meu primeiro objetivo: o Setúbal Triathlon

Fizemos testes de biomecânica, testes de lactato na bicicleta (já que esta seria a modalidade em que à partida necessitaria de mais trabalho - confirmou-se!) e a partir daí foi dar o corpo ao manifesto. Ligado todos os dias ao TrainingPeaks através da minha Suunto App, o Diogo ia-me lançando os treinos, eu treinava, dava-lhe feedback, ele adaptava e, semana após semana, os resultados foram aparecendo: a natação tornou-se mais fácil (pronto, menos difícil), a corrida mais perfeita (a análise na MotionMetrix revelou pormenores preciosos a corrigir) e a bicicleta... bom, a bicicleta revelou logo através do lactato que tinha muita coisa para melhorar. Com pouco treino de base e pouco tempo pela frente, não poderia esperar grandes milagres até à prova de Setúbal, até porque certamente é aquela modalidade em que todos temos mais dificuldades em encontrar tempo livre para treinar. Seja porque isto significava 2 ou 3 horas de treino e, se não feitos no rolo dentro de casa, é sair para a rua e pedalar, o que no meu caso só acontece aos fins de semana... e nos possíveis, porque aqui também se trabalha em alguns fins de semana. 

Portanto o desafio era este e estava lançado! Do dia 1 de março até à prova contabilizei:

  • 30km de natação
  • 270km de bicicleta (uma miséria, mesmo sem contabilizar o tempo no rolo)
  • 165km de corrida
  • Ginásio: não contabilizei, mas foram menos do que as que deviam ter sido

Deixo uma nota para o último ponto, o ginásio, já que algumas das coisas que tinha (e tenho) para corrigir, principalmente na minha forma de correr e de nadar, se podem corrigir com treino específico no ginásio. Fi-lo pouco, mas é um trabalho a continuar, diria mesmo um trabalho contínuo, que deverá até evoluir muito daqui para a frente. Nota especial para as mãozinhas do Daniel (ainda não conhecem a Goall Wellness? pois deviam) que, cirurgicamente, três diazinhos antes da prova, provaram que sabem muito bem o que fazem, com uma sessão de libertação miofascial até ao osso!!! (literalmente)

 

A nutrição

Há uma coisa essencial para que um atleta que se preze se possa chamar tal coisa: é a disciplina que mostra a comer. Ser atleta implica saber treinar, repousar (essencial para recuperar decentemente), mas também (tão importante como as outras duas alíneas) comer de forma adequada. A nutrição é um dos pontos essenciais desta triologia e, embora não pareça, eu precisava de uma ajuda. 

Quem já me viu pelo menos uma vez na vida sabe que sou magro. O que até pode ser bom! Mas a minha magreza combate a tempo inteiro com a agressividade de um dia-a-dia nem sempre tranquilo, com a falta de tempo para treinar decentemente (com calma e alguma ciência), com o stress que uma coisa e outra implicam. Stress que liberta cortisol. Cortisol que, quando em excesso, resultado do combate prolongado a esse mesmo stress (o da cabeça, mas também aquele que os treinos provocam no corpo), desregula algumas funções essenciais do organismo, aumentando a pressão arterial e os níveis de açucar no sangue, providenciando mais energia muscular. Recorde-se que esta hormona está programada para combater situações de emergência, e atua mesmo em falsas emergências, que no meu caso provocaram algumas dificuldades a nível hormonal e hepático.

Assim, e depois de algumas (muitas) análises, percebi que atrás desta magreza se escondiam 20% de massa gorda e que a massa muscular, não estando má, podia estar em níveis melhorzinhos, pelo menos para suportar provas de 5 ou 6 horas, como iria acontecer no Setúbal Triathlon. O processo que se seguiu envolveu algumas mudanças na alimentação (mais proteínas e gorduras saudáveis, carbohidratos só em momentos chave do dia), suplementação adequada, que permitiram que em pouco mais de 1 mês reduzisse 5% da massa gorda e aumentasse em 2kg a massa muscular. Claro que isto fez-me baixar para os 74kg de peso. Magro? Sim, sem dúvida. Saudável? Sim, também!

 

A prova

Uma das coisas que me estava a causar algum stress (mais, porra??) estava nas minhas duas rodas. Num dos últimos treinos que fiz de bicicleta, o desviador dianteiro resolveu começar a não colaborar e cheguei ao fim de semana da prova a pensar no que é que havia de fazer para resolver o assunto. Estava eu já conformado com a situação (nas minhas previsões já contabilizava inclusive o tempo de paragens para colocar a corrente de volta na pedaleira) quando na manhã de sábado, antes do check-in do material, percebi que a Kombina ia estar presente na feira do evento. Fica a nota de atenção para todos os principiantes no triatlo: não deixem para a prova algo que podem arranjar antes. Eu deixei e podia ter-me dado muito mal com isso. Por sorte ainda não tinham nenhuma bicicleta para arranjar. Ainda era cedinho, deixei a minha bicicleta, fui almoçar, voltei e ainda estavam de volta da mesma. A dedicação de alguém à causa é um pouco pela teimosia, e a do André esteve ao mais alto nível, já que não me deixou levar a bicicleta sem que esta estivesse o melhor que pode estar, dentro das possibilidades. Obrigado André, ficou quase perfeita!

Feito o check-in e colocada a bicicleta no parque de transição, era tempo de relaxar e não pensar mais no assunto o resto do dia. Era tempo de ir dar um passeio com a família pela Arrábida e de descansar cedinho na melhor guest house do mundo (sim, é mesmo a melhor guest house do mundo, e fica na nossa terra!). Fica em Setúbal, chama-se RM Guest House e se apreciam ser tratados nas palminhas, procurem que não se vão arrepender! Além do mais, para quem, como eu, trazia a família para ver prova (porque nunca é a mesma coisa sem eles), a RM Guest House fica em plena Av. Luísa Todi, mesmo em frente ao local onde as bicicletas saíam da cidade rumo à Mitrena, e onde os atletas já a correr faziam o retorno rumo à meta.

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Depois do descanso, a manhã de domingo fez-se com um pequeno almoço servido exclusivamente aos triatleta às 6h00 (e tão ajustado quanto possível às preferências de cada um), seguindo-se uma caminhada de cerca de 3km até ao Parque Urbano de Albarquel, sempre debaixo de neblina grossa e chuvinha miudinha. Mau tempo. Era só o que faltava! Mau tempo que não levantou tão cedo. Tudo no parque de transição estava molhado, pelo que, equipada a bicicleta e feitos os últimos ajustes, era tempo de vestir o fato e me juntar à malta do Oriental Triatlo para irmos alinhar nas boxes na praia, para sair para a natação.

Vou-me escusar de fazer grandes descrições sobre como correu a prova propriamente dita. É uma prova de triatlo. Nesta, distância "half ironman", primeiro nada-se 1,9km, depois pedala-se 90km e depois corre-se 21km. As únicas particularidades foram que: na natação estava um nevoeiro que mal se viam as bóias. Para nadar valeu a ajuda do staff nos barcos e da orientação dos atletas da frente, já que os que seguiam atrás orientavam-se por estes.

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Na bicicleta, igual. Se bem que aqui o inimigo não era o nevoeiro, mas a chuva miudinha que este trazia. E se em reta o perigo é mais ou menos controlável (desde que não se façam travagens bruscas, não há grande perigo de queda), já na descida da Serra da Arrábida o caso muda de figura. No meu caso, confesso que estava borradinho de medo, já que a descida é íngreme e veloz, o asfalto não é do melhor, os pneus pareciam manteiga e... travões? Nem pensar! Assim que os calços tocavam nas rodas... primeiro não travavam, já que calços molhados com carbono molhado não provocam atrito nenhum (o som das rodas era sempre a acelerar, mesmo!) e quando se apertava um pouco mais a manete... nem pensar! Sentia-se logo a bicicleta a "rabear", portanto a única coisa a fazer era deixá-la ir e tentar fazer as trajetórias mais limpas possíveis!

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E depois veio o calor. Já na fase da corrida, as nuvens abriram, o sol despontou e abateu-se aquele calorzinho bom típico do microclima do tipo estival da Serra da Arrábida. Tanto que raros foram os atletas que não chegaram a casa com o escaldão do trisuit nas costas. Eu bem levei o protetor solar, mas com uma manhã de inverno, torna-se complicado prever uma tarde de verão, portanto não usei, claro.

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Final dos acontecimentos, só dois apontamentos... ou melhor, três:

 

1º A natação correu-me ao nível do melhor que me podia ter corrido, dado o algum mau tempo, má visibilidade... mesmo assim 1h05 esteve ao nível do que fiz no meu primeiro (e único... até à data) Ironman em Copenhaga. Saí da água sem fadiga, portanto sem apontamentos de maior.

 

2º A bicicleta correu bem na serra, menos bem no troço da Mitrena. Revelei aquela força e agilidade típicos de quem treina e gosta do monte, mas também a falta de treinos de base de 3, 4 ou 5 horas a rolar em plano, com a potência certa. Tempo e mais tempo de treino José!

 

3º A corrida fez-se como estava à espera. Sem qualquer problema na transição, tive que me esforçar para abrandar um pouco ao início, já que quando saí do P2 estava a correr a pouco mais de 4:00'/km e queria chegar ao fim sem precalços! Ajustei o "cruise control" para os 4:30'/km, que mantive do início ao fim, focando-me numa corrida alta, na forma de apoiar o pé no chão, na extensão da perna em cada passada, na nutrição que tinha que tomar no tempo certo... e nas claques que esperavam por mim para gritar a cada volta que dava, a cada pulseira diferente que levava no pulso! Obrigado a todos, família, claques, desconhecidos, pelo apoio a todos os atletas. Porque é assim é que é bonito e é assim que sabe bem vir transpirar estes desafios!

 

Pós-prova

Cortei a meta com 5h38 minutos, mais 3 minutos do que há 2 anos atrás, na edição inaugural do Setúbal Triathlon, ainda em modo de treinos rumo ao meu primeiro Ironman. Se podia ter sido melhor? Pode sempre! Se fiz como gostaria de ter feito: sim, claramente! O mau tempo inicial estragou-nos um bocado os planos (creio que a todos), porque sempre se podia ter nadado um pouco mais fluído, aproveitado um pouco mais as descidas na bicicleta... mas estas coisas são como são. Ou bem que estamos preparados para aceitar as variáveis, para melhor ou para pior, ou então a melhor prova que podemos fazer é de carrinhos de choque.

Foi um bom espetáculo! O público nunca arredou pé, as claques fizeram barulho. Deu para rever algumas caras conhecidas e para conhecer outras que ainda não conhecia. Deu para aproveitar a viagem, o que sabe sempre bem.

Seguiu-se a semana de descanso, com uma corridinha de meia hora no dia seguinte, só para não deixar prender as pernas, mas muito descanso ao longo da semana, aproveitando até o feriado de Páscoa para - sim, isso mesmo - não fazer nada! Porque daqui para a frente ainda há mais alguns desafios para enfrentar e os treinos vão continuar. Mas isso serão outras histórias e esta já vai longa...

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