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De Sedentário a Maratonista

A motivação também se treina!

Ter | 30.10.18

Os meus super heróis: o (agora) maratonista Rui

José Guimarães

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Conheço o Rui já faz há algum tempo. Conheço-o desde "aquela barriguinha". A nossa amizade começou no grupo Corrida Noturna Parque das Nações e tem vindo a desenvolver-se, tendo eu hoje a oportunidade e o prazer de o treinar rumo ao que ele quiser fazer com a sua vida. E o que o Rui mais quer fazer é ser saudável, para ser feliz!

O Rui é mais um dos exemplos de alguém que já foi (muito) sedentário e agora é maratonista. E não se vai ficar por aqui, costuma dize-me assim nas entrelinhas...

 

Qual é a sensação que tens hoje ao olhares para o Rui do passado?

Faço-me uma pergunta: como foi possível ter ficado com um excesso de peso tão grande e não ter conseguido inverter a tendência em tantos anos? É uma sensação de vitória, de concretização, de uma vontade e de uma enorme alegria por ter conseguido atingir o objetivo que estabeleci quando decidi fazer algo! Algo diferente do que apenas perder peso orientado pela alimentação, foi uma mudança de foco, perder peso com prazer, fazer algo com esforço, mas com uma enorme satisfação.

 

Quanto é que pesavas e quanto é que pesas agora?

O percurso foi longo, não existem soluções milagrosas e é um processo que exige muita autodeterminação. Comecei em 2013 com 123Kgs e ao longo dos anos tive alguns altos e baixos. A vontade de vencer nem sempre respeitou a capacidade do corpo, pelo que tive uma lesão que me levou a parar um ano, mas não desisti! Durante esse período procurei uma outra atividade física que me permitiu não parar e continuar: a caminhada. É importante seguirmos os conselhos e orientações de quem sabe, a nível do desporto, da alimentação e do estado de saúde! O corpo aguenta, mas não tolera tudo. Por vezes é necessário recentrarmo-nos no objetivo e, em maio de 2017, após a recuperação da lesão, estava com cerca de 113kgs e hoje … após a maratona cheguei aos 88 kgs.

Ainda não cheguei onde quero, mas está quase lá! É importante traçarmos metas intercalares e monitorizarmos as mesmas regularmente, diria quase diariamente, o desempenho, o quanto conseguimos superar e o quanto falta.

 

Já querias fazer coisas diferentes na altura, ou nem pensavas nisso?

Eu sempre gostei de fazer desporto. No entanto, por vicissitudes da vida, disponibilidade, preguiça e uma enorme impulsividade de comer, especialmente alimentos e bebidas com alto teor de açucar, não conseguia inverter a minha tendência de aumentar de peso.

Ao longo dos anos, foram algumas as tentativas de perder peso, através de dieta ou por frequência de ginásio, mas na maioria dos casos fracassadas.

É importante fazer algo porque queremos, porque gostamos e … ajuda muito o envolvimento familiar e fazer tudo em conjunto, a nível de casa e/ou de grupos de amigos ou conhecidos que estejam connosco nas atividades que elegemos como a chave para a mudança que procuramos.

Se pensar na primeira corrida que fiz … foi doloroso, uma caminhada em que corri 2 kms e fiquei de rastos e cheio de falta de ar. Depois foi a vitória pessoal, momento a momento, o conseguir fazer 5kms a correr, depois 8, 10, 15, 17, 21 e sucessivamente até onde cheguei hoje, batendo recordes pessoais de distância e de tempo. Quantas vezes fui questionado: "Mas tu consegues? Olha que a distância é muita, estás preparado? Para quê tanto treino e tanta corrida, isso é demais!"

 

E o que significa para ti ser maratonista?

Ser maratonista foi o atingir de uma meta que até há bem pouco tempo eu via como algo muito distante, uma marca que apenas alguns conseguiam alcançar.

Se tivermos como princípio que nada é impossível, que se alguém conseguiu então é um objetivo atingível … então porque não!
Até março de 2018 eu apenas tinha como objetivos de corrida distâncias mais pequenas, o fazer meias-maratona, já era uma glória, até que … num evento/treino da Bolsa de Turismo de Lisboa na FIL ganhei a participação no Azores Trail no Faial e então pensei se consigo fazer 21kms em estrada e em trail, então porque não 42kms em trail, uma oportunidade única para conhecer locais e paisagens únicas que nunca mais talvez tenha oportunidade e assim fiz a inscrição para o Faial Costa a Costa! Por percalço no dia antes da prova na subida ao Pico torci o pé e não consegui fazer o que queria.

Sendo certo que tinha treinado, hoje digo que não estava devidamente preparado. Tinha sido um treino individual, sem apoio, sem um plano ou regras. Quando cheguei a Lisboa, no final de maio/2018, face a diversos desafios que já tinha tido anteriormente de amigos do meu grupo de corrida, decidi, avançar para a maratona e comecei o treino. Um treino longo de cerca de 4 meses, duro por vezes, sem férias nas férias, para o qual foi importantíssimo ser feito em grupo e com reporte aos amigos mesmo quando era feito sem companhia, nunca estava só! Ser maratonista é a prova de que quando queremos conseguimos. E em grupo é mais fácil, vai-se mais longe e não temos a tentação de desistir!

 

E que conselhos darias a todos aqueles que estão no registo de excesso de peso ou mesmo obesidade e que gostavam de fazer algo para combater isso?

Desdramatizar! Ter foco no que se quer e acima de tudo desejar, mas desejar mesmo conquistar o objetivo! Tem que se ter uma vontade pessoal muito forte e ser determinado! E é bom associar algo que gostamos ao processo, pois o caminho é penoso e claro que não é fácil.

Na minha decisão de perder peso, tive como princípio mudar o foco, desdramatizar e … porque não perder peso com prazer e a fazer algo que gostava? É importante identificar um desporto/atividade física que gostemos e que nos permita perder calorias, sendo que a alimentação será apenas uma preocupação por acréscimo.

No processo é muito relevante o apoio de grupos que nos envolvam na atividade que queremos realizar, a preparação física e os conselhos de alguém que seja experiente e então depois, mas ao mesmo tempo, o apoio para a reeducação alimentar.

Saliento que reeducação alimentar não é dieta, isso é algo muito penoso. É acima de tudo entendermos o que podemos ou não comer ou beber e em função disso tomarmos decisões para o nosso bem estar, sem qualquer preocupação infundada, como forma de melhorar a condição física e se obterem melhores resultados.

 

É difícil o processo de passar de pessoa sedentária, para uma pessoa que tem estilo de vida ativo?

Não! Determinação e necessidade de reeducação de tarefas/atividades e com compromisso. É importante ter-se um horário, um agendamento e horário em que, quando se falta, se tem efetivamente uma falta. O conceito de livre trânsito não ajuda, pois permite-nos fugir ao compromisso, do género "hoje não consigo ou não me apetece, pelo que vou amanhã". Isso não pode acontecer!

 

Queres partilhar a rotina de um dos teus dias normais?

Começo o dia com um pequeno almoço de fruta fresca e frutos secos, a meio da manhã como algo, tipo um pão com fiambre sem manteiga e religiosamente pelas 13:00 almoço. A meio da tarde como novamente algo e mais tarde pelas 20:30 janto.

A minha vida é sentado, pois trabalho num escritório. No entanto procuro realizar por semana pelo menos 3 vezes de atividade desportiva, corrida e/ou ginásio, a qual é complementada ainda com caminhadas frequentes, podendo a mesma ser ao início ou ao fim do dia.

 

Depois da maratona … o que mais gostavas de fazer?

Antes de fazer a maratona, costumava dizer primeiro quero consolidar o que já consegui e depois pensar em voos mais altos. Primeiro quero fazer várias meias maratonas com um à-vontade que me permita pensar ir mais longe. Temos que sair da zona de conforto… mas é importante ter presente que é necessário intervalar desconforto com conforto, não podemos estar sempre no limite, pois isso pode ser perigoso e levar-nos às lesões.

Por isso agora quero fazer uma nova maratona, uma prova em que me permita testar melhor a minha capacidade, pois fiz a maratona sempre à defensiva e com receio do desconhecido. Diziam que havia uma parede de esforço/cansaço em torno dos 30 kms, mas nada disso aconteceu.

Quero fazer uma prova de trail de 42kms no Faial, a que não fiz em maio/2018 por ter torcido o pé, o Azores Trail – Faial, Costa a Costa (já está marcado). Enfim, quero continuar e manter-me em forma! Quero superar-me, com calma e tranquilidade, mas pensando sempre em novos desafios! Quero ajudar outros a alcançar o consegui, seja a título individual ou através do meu grupo de corrida, a Corrida Noturna Parque das Nações.

 

Como vês o mundo atualmente e daqui a 50 anos?

Atualmente, com a industrialização da alimentação e fácil acesso a todo o tipo de alimentos, sem uma adequada educação da sociedade, é fácil e barato comer mal em detrimento da alimentação regrada e saudável.

A nível do ensino, salvo ofertas privadas não disponíveis à generalidade da população, existe uma clara ausência de sensibilização para o desporto, que motive a atividade desportiva e a vida ao ar livre dos mais novos.

Estes aspetos refletem-se num crescendo da obesidade e numa menor participação dos mais novos em atividades desportivas. Diria que nas provas de atletismo, uma grande percentagem dos atletas têm uma idade superior a 30 anos, os mais novos não aderem.

As ofertas lúdicas na era digital propiciam o sedentarismo, o isolamento dos indivíduos e a uma má alimentação, elementos que embora sejam agradáveis e satisfatórios no curto prazo, provocarão problemas de saúde no futuro.

Daqui a 50 anos de uma forma realista teremos aspetos melhores e outros piores do que a situação atual.

A nível individual haverá uma maior consciencialização de diversos aspetos como a alimentação, o bem-estar físico e a necessidade de se manter uma atividade física regular, aliada a uma correta alimentação, pelo que perspetivo um incremento do número de praticantes de desporto nas diversas atividades.

Não obstante, tal tendência não será generalizada, decorrente da evolução tecnológica, incremento de atividades que não exigem esforço físico, assente na falta de um plano educação para o bem-estar físico, e continuaremos a assistir em contraciclo a um aumento do sedentarismo e da obesidade.

Com o aumento da poluição e uma mudança significativa das condições climatéricas, teremos igualmente diversos impactos na saúde de todos.

No futuro, certamente assistiremos a um incremento da oferta de atividades desportivas e soluções para uma vida saudável, todavia, nem sempre ao alcance de todos.

 

O Rui sedentário:

 

O Rui ex-sedentário: