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De Sedentário a Maratonista

A motivação também se treina!

Ter | 24.07.18

Os meus super heróis: o Ricardo

José Guimarães

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Hoje começo uma rubrica nova aqui no blog. São posts um pouco diferentes dos habituais. São posts que falam de pessoas que me inspiram. Pessoas que de alguma forma conseguem ultrapassar obstáculos que, se eu me visse confrontado com alguns, não sei como seria. São pessoas comuns, mas que, para mim, são autênticos super heróis!

 

O Ricardo Cunha tem 38 anos e é natural de Escariz S. Martinho, concelho de Vila Verde. É casado, segurança de profissão, e convive diariamente com uma doença crónica: insuficiência renal crónica, conhecida por Nefrite IGA. Resumindo, os rins não funcionam! Está atualmente em tratamento com um programa de diálise peritoneal, que ajuda a fazer o que os rins não fazem naturalmente.

 

Desde cedo o Ricardo manifestou interesse pela prática desportiva, dedicando o seu tempo livre a modalidades como o futebol federado, futebol salão e cicloturismo. Ainda com total desconhecimento de que pudesse ser portador da doença, a prática de atividade física contribuiu para o seu bem-estar físico e psicológico, para a sua auto-estima, desenvolvimento geral e social. Desde essa altura já encarava - e bem - o desporto como fonte de bem-estar e saúde.

 

Aos 19 anos ingressa na vida militar, em regime de contrato, culminando com uma missão na Bósnia no ano 2000, vida que deixou em janeiro de 2001 porque a vontade de estar próximo da sua família, pilar da sua vida e formação enquanto pessoa, e a vontade de constituir a sua própria família, foram mais fortes.

 

Nessa altura surgem os primeiros sintomas de uma doença com a qual teria de aprender a lidar toda a sua vida. Fadiga intensa, hematúria, infeções do trato urinário recorrentes, hipertensão arterial, entre outros sintomas, tudo levou a um internamento no então Hospital de S. Marcos – Braga, no serviço de Urologia, tendo neste contexto, sido observado pelo Dr. Frazão, conceituado Nefrologista que o reencaminhou para o Hospital de S. João para realização de exames específicos. O reencaminhamento para um hospital central constituía um misto de sentimentos e inquietações: se por um lado tinha a segurança de estar bem entregue, dada a oferta de especialidades desse hospital, por outro lado havia questionava-se com medo, sobre o porquê da necessidade de ser tratado num hospital com aquelas dimensões e conotação. Parecia o início de um fim anunciado, como que um prenúncio para algo de muito grave que viria a acontecer.

 

A biopsia renal confirma o temível diagnóstico de Nefrite crónica. Inicialmente não lhe pareceu tão mal assim. Não tem o estigma, nem o impacto de um cancro, não se vê objetivamente a doença. Parece tratável, ainda que sem cura. E a grande maioria das pessoas não sabe o que é, por isso acreditava que pudesse viver perfeitamente e pacificamente com a dita nefrite. Dedicou-se a pesquisar, tentou ouvir o que os profissionais de saúde lhe diziam sobre a doença, mas pouco retinha, até porque não tinha feito nada de mal a ninguém para merecer levar com uma doença grave e crónica. Permaneceu incrédulo, sem noção da gravidade e cronicidade da doença. Manteve por algum tempo a possibilidade de erro no diagnóstico e da possibilidade de tudo aquilo se tratar de uma infeção aguda, provavelmente adquirida durante o duro curso da vida militar na Bósnia. Tentou atribuir culpas aos genes, mas nunca chegou a ter a confirmação das causas da doença. E isso revoltou-o… ainda que procurasse sempre não dar a entender aos outros, vivia uma revolta interior silenciosa.

 

Com o diagnóstico e início do tratamento sintomático, passou a sentir-se fisicamente melhor, manteve a sua atividade profissional e decidiu abraçar a prática desportiva, com os amigos, através da prática de futebol de salão. Isto constituía um importante momento de convívio e bem-estar, e sentiu-se novamente capaz e sem limitações. Seguiu-se um curso de tratamentos com corticoterapia, que pretendia diminuir a inflamação crónica do rim, mas traduzia-se numa panóplia enorme de efeitos secundários difíceis de aceitar e tolerar para o doente, sobretudo os edemas e o ganho de peso. Para lutar contra isso, o Ricardo insistia na atividade física, de forma quase obsessiva, como única forma de escape para tudo que lhe estava a acontecer. Era uma forma de luta, resistência, autossuperação e servia para apaziguar a sua revolta interior.

 

Iniciou a prática de outras modalidades, como o cicloturismo, desafiando-se até ao limite. Durante este percurso manteve o acompanhamento semestral e vigilância periódica para controle analítico da equipa médica e da nutricionista. Apesar de incentivarem a prática, indicavam-lhe prudência e cumprimento rigoroso do regime terapêutico. De realçar a necessidade de hidratação e reposição metabólica, com preparados caseiros que lhe ensinaram a fazer, um género de “Isostar” natural, feito em casa, que tinha de o acompanhar, sempre que aumentasse a intensidade da prática desportiva.

 

Foi, em grupo, de bicicleta até Santiago de Compostela, até Fátima, percursos de muitos quilómetros e desgaste intenso. Como homem de fé, o Ricardo procurava sempre percursos promotores de alguma meditação interior, como se fosse entregar o seu sacrifício em busca da sua cura, como se fosse procurar alento e proteção divina para algo que ele ainda desconhecia e procurava não aceitar. E nada, nem ninguém o fez parar. Nem mesmo algumas lesões que foram surgindo e alguns sinais esporádicos que o corpo lhe ia dando, fazendo-o perceber a duras penas que, a doença que ele queria esquecer, permanecia afinal impiedosa e sem sinais de dar tréguas.

 

Em 2013 inicia a prática de "trail running", modalidade que o apaixonou de imediato, porque fazia-lhe lembrar a vida militar, através da corrida na montanha e o contacto com a natureza. Esta prática fazia sentir-se livre, sem nada que o contivesse ou amarras que o segurassem. Com a Minho Aventura seguiram-se provas semanais de progressiva intensidade e dificuldade. Iniciou com uma prova de 22km de corrida na magnífica, esplendorosa, mas exigente Serra D`Arga, até limite máximo de provas de 110km. Competia com pessoas saudáveis, que acompanhava perfeitamente, o que lhe aumentava o ego e a auto-estima. Carregava consigo o sentimento de que era capaz e nada o poderia destronar.

 

Correu intensamente até santiago de Compostela, em 3 dias, deixando para trás peregrinos em bicicleta que ficavam admirados com a sua força e forma física. Cativou a sua esposa, irmão e amigos para a prática. A Natália, esposa atenta, procurava sempre acompanhar o marido, como forma de o motivar, mas também com preocupação, procurando protege-lo, tentando que ele não excedesse os seus limites. Mas não existem limites para almas assim!

 

Decidiu correr por causas, pela sua causa. Investigou e tomou conhecimento de associações que apoiavam os doentes renais e procurou ajudar, correndo. Por cada Km percorrido fazia uma doação para a associação, procurando chamar a atenção da população para esta doença grave e crónica, tentando diminuir o estigma associado a doença e incentivar as pessoas doentes a manterem-se ativas e saudáveis. Tornou-se socio da APIR (Associação Portuguesa de Insuficientes Renais), mantendo uma participação ativa, dando formação e palestras, promovendo o seu exemplo de doente crónico, ativo e desportista!

 

Nos finais de 2016 o seu corpo começou a dar os sinais de falência. Surgem as dores musculares, cãibras, anorexia, fadiga, edemas, que o atormentavam. Incapaz de aceitar o curso final da sua doença mantém a atividade física, apesar do desconforto da prática e da necessidade de maior tempo de recuperação do esforço. Profissionais de saúde insistiam para que reduzisse a atividade, mas ele não podia, pois só o continuar a desafiar o seu corpo lhe permitia não se entregar a esta doença, continuar vivo e a acreditar que era capaz de resistir a uma realidade anunciada, de limitação, incapacidade e dependência. Esta teimosia e forma de estar, causava frequente desconforto e discussão familiar, pois as pessoas que o amavam tanto temiam que algo lhe acontecesse e presenciavam de perto o sofrimento físico associado a uma prática desportiva, por vezes exagerada, face á sua condição de saúde, progressivamente mais frágil e debilitada.

 

Em janeiro de 2017, o médico nefrologista dita-lhe a sua sentença final, por falência renal (13% de funcionalidade) e exige a escolha de um dos métodos de tratamento. Embora soubesse, a razão esteve sempre dissociada do coração e a fé de que não teria que passar por isto é que mantinha o alento para viver. Achou tudo mau, condicionador e limitador. Optou pela diálise peritoneal pela maior garantia de autonomia, por evitar deslocações obrigatórias a clínicas, onde via nos outros doentes a sua própria doença e sofrimento e ele não conseguiria tolerar isso. Colocou um cateter para dialise peritoneal, que não lhe pareceu de todo assustador e decidiu “queimar os últimos cartuchos” e aproveitar tudo o que sabia que poderia vir a perder brevemente. “Com o cateter ainda se corre melhor” - dizia! E mantinha a atividade de trail running, bem como o desafio constante dos seus limites físicos.

 

Mas como previsto, a doença não abrandou. Ganhou a batalha e a 18 de maio de 2017, procedeu à exteriorização do cateter para a realização da primeira sessão de dialise peritoneal, após uma sequência de episódios dolorosos e sofridos. Foi neste momento que a depressão se apoderou do Ricardo, visível através do vazio do seu olhar, do seu sorriso triste, da incapacidade, limitação e da falta de expectativas. Facto agravado, pelas múltiplas intercorrências infeciosas relacionadas com o cateter que lhe martirizavam e amedrontava. Perdeu a capacidade e o direito de sonhar e, como disse alguém, ainda que permaneçamos vivos, se não sonharmos, a alma morre. Mas a alma do Ricardo recusou-se a isto. Decidiu que não seria vencido pela doença, que continuaria a tentar viver o melhor possível e a fazer aquilo que sempre gostou. Cerca de 1 mês depois do início da diálise, iniciou caminhadas com o seu pai, eterno companheiro, atento as necessidades do seu filho, pelos caminhos da freguesia, arriscando de quando em vez uma corridinha. Contrariamente ao que ele próprio esperava, o tratamento de diálise devolveu-lhe a força física e a tolerância ao esforço. Sentia-se fisicamente melhor, com maior capacidade e tolerância á prática desportiva e logo arriscou correr, voltou a competir na Minho Aventura, apercebendo-se que os seus companheiros continuavam a acreditar nele e a estimulá-lo.

 

Voltou às competições em março de 2018. Enquanto sócio da APIR, tomou conhecimento do Jogos Europeus para Transplantados e Dialisados e decidiu abraçar esta aventura, embora inicialmente renitente, pela expectativa de poder ser chamado para transplante, mas sobretudo pelo encargo financeiro que representam para o próprio atleta. Assim embarcou numa campanha de divulgação da sua participação nos jogos, de forma a obter apoios. Durante este período de divulgação não temeu expor-se. Deu a cara pela sua doença, tentando desta forma dar tudo de si pelos outros que partilham dos mesmos sentimentos, fraquezas e medos e que precisam de uma mão amiga e de um exemplo a seguir.

 

O Ricardo assegura que nada o vai fazer parar, agradece todos os Dias a Deus a sua doença pois abriu-lhe horizontes para algo muito maior. Cumpre rigorosamente o esquema medicamentoso, a dieta a atividade e o repouso e os dois tratamentos de diálise diários. Está consciente das suas limitações, mas não pretende permitir que estas limitem os seus sonhos e projetos. Ambiciona acima de tudo poder estar junto dos seus companheiros de doença, trabalhando com eles na promoção de hábitos de vida saudáveis para que assim possam ser doentes mais saudáveis. Pretende continuar a correr, por ele, pela sua família e amigos, pelos doentes e porque, afinal, há vida para viver após diálise e após transplante.

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