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De Sedentário a Maratonista

A motivação também se treina!

Qui | 21.03.13

A corrida, a dor e o vício

José Guimarães
Já aqui muito foi escrito sobre as boas sensações que temos quando corremos. É uma espécie de vício que se apodera de nós e não nos larga mais. Se assim não fosse, porque é que corremos mesmo quando há o risco de nos magoarmos ou de prejudicarmos a nossa própria saúde? Há quem diga que é das endorfinas e inclusive já foram feitos estudos - muito pouco conclusivos - à atividade cerebral dos corredores. Ainda há bem pouco tempo a Susana falava aqui no site do vício da corrida e agora bem recentemente, depois de ler o livro do Dean Karnazes, apercebi-me que há de facto aqui algo mais do que - simplesmente - correr. Desta vez não vou escrever, vou transcrever. Faço-o simplesmente porque o que o Dean escreveu bate tão certo com aquilo que sinto quando corro, que quase não dava para ser dito de outra forma. E se chegarem ao fim e vos apetecer mais, já sabem, comprem o livro. Recomendo vivamente! Sendo assim aqui fica o excerto... aguardo os vossos comentários: "As endorfinas são compostos opióides poderosos, produzidos pela glândula pituitária e pelo hipotálamo durante certas ocorrências que requeiram esforço, como o exercício físico, a dor, o consumo de comida picante e, topem esta, durante um orgasmo. Semelhantes aos opiáceos quanto à capacidade de produzir um alívio da dor e sentimentos de bem-estar, as endorfinas funcionam como analgésicos naturais. Isso deixa uma dicotomia interessante. Correr causa dor, mas também a cura. Então por que ocuparmo-nos com uma atividade que causa desconforto, apenas para exigir mais dessa mesma função para conseguir alívio? Não será essa a definição do vício? Talvez. Esse argumento pode parecer válido se estiverem felizes por passar a vida a viajar na zona de conforto. Porém, há pessoas que são atraídas pelas mudanças de humor dramáticas - baixos graves e profundos seguidos de episódios explosivos de uma alegria suprema. Qualquer pessoa que tenha corrido uma maratona percebe isto sem qualquer esforço. Davis Wessel, do Wall Street Journal, escreve: «Se Van Gogh ou Mozart tivessem tomado Prozac, teriam sido poupados a uma agonia depressiva, ou teria o mundo sido privado da sua arte magnífica?» A sociedade moderna - particularmente a indústria farmacêutica - diz-nos que a dor deve ser eliminada. Não tenho assim tanta certeza. As revelações mais profundas dos corredores ocorrem nos momentos em que a dor aperta mais. E se mudássemos a nossa mentalidade e convidássemos a dor a fazer parte da nossa vida e a encarássemos à nossa maneira, em vez de tomar um comprimido para a evitar? Afinal de contas, a dor é inevitável. No entanto, sofrer é uma opção. Em vez de procurar conforto, os corredores aproximam-se do caos abismal. Quando o potencial avassalador e debilitante da dor se apodera do corredor, este luta para superar e comandar a própria força que o ameaça pôr de joelhos. «A obsessão com a corrida é realmente uma obsessão com o potencial para viver cada vez mais», escreveu o grande filósofo e corredor George Sheenan. A corrida cria oscilações que induzem grandes explosões de criatividade e perspicácia. Acredito que essas mudanças dramáticas produzem força de caráter. Assim como uma vida sem problemas não faz de ninguém forte nem bom, as estradas a direito não fazem um bom corredor. À medida que o corredor luta contra a vontade de parar, também aprende a dominar a sua mente. Ao superar a adversidade, vai ficando a conhecer melhor o funcionamento da sua mente. A vida torna-se maior, mais ousada, mais cheia de potencial. «Entre as dificuldades existem oportunidades de crescimento», escreveu Einstein. Já disse isto antes: há magia na infelicidade. Nós, os corredores, desejamos sempre mais. A nossa discórdia emocional aumenta de cada vez que nos aproximamos dos limites. Nada parece acalmar o apetite insaciável para viver cada vez mais. Nunca estamos satisfeitos. Vício? Talvez. Será que isto é mau? Decidam vocês."