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De Sedentário a Maratonista

A motivação também se treina!

Sab | 28.04.18

Metas e objetivos na corrida

José Guimarães

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Nestas coisas das corridas, todos nós temos motivações e objetivos diferentes. Alguns sonham com, um dia, correr uma maratona. Outros querem simplesmente correr 10 km pela primeira vez (ainda me lembro dessa minha primeira vez como se fosse ontem). Pessoalmente, gosto dos desafios das distâncias longas. Mas seja qual for o nosso objetivo, todos nós temos uma paixão por correr e encontrámos algures no tempo uma razão para o fazer. E essa razão tem certamente de ser importante para nós, caso contrário não nos faria sair à rua para treinar, dia após dia, muitas vezes à chuva, ao frio, ou à noite, depois de um dia de trabalho.

 

Depois de estabelecermos a nossa razão principal, é importante escrevermos num papel todos objetivos que gostaríamos de atingir no caminho, porque um objetivo que não esteja escrito e não seja revisto, muitas vezes não passa de um simples desejo. Diz quem sabe, que os objetivos devem ser SMART, o que em inglês significa Specific (específicos), Measurable (mensuráveis), Attainable (atingíveis), Realistic (realistas) e Time-related (datados). Um exemplo de um objetivo pode muito bem ser alguém com 30 anos, que sente falta do desporto que praticou na escola e que decide começar a treinar para fazer uma meia-maratona que vai acontecer daqui a 4 meses. Esta pessoa provavelmente terá sucesso, porque tem um objetivo específico, uma razão para o fazer e tempo de treino suficiente pela frente para estar preparada no dia da corrida.

 

No entanto, não quero parecer demasiado rígido com todas estas contas. Isto porque acredito que, sejam quais forem as nossas razões para correr, devemos tomá-las como algo muito pessoal e, acima de tudo, encontrar sempre um ponto de satisfação plena nesta jornada. Eu? Eu corro porque gosto. Senão não o fazia.

 

Como começar a estabelecer objetivos de corrida?

Se se estão a iniciar nestas coisas das corridas, estabelecer um objetivo para cada treino (ou para conjunto de treinos) é uma ótima forma de se manterem fiéis ao mesmo, ajudando-vos também a ver os progressos que vão fazendo. Aqui ficam portanto algumas metas que podem usar no estabelecimento dos vossos primeiros objetivos de corrida:

 

  • Marquem uma hora e corram sem interrupções. Se são estreantes, isto pode equivaler a correr 5 ou 10 minutos seguidos a correr. Se já correm com alguma frequência, há 1 mês ou mais, este objetivo pode significar correr 30 minutos. Mas foquem-se e procurem fazê-lo sem interrupções (por exemplo, não vale parar no supermercado no caminho).
  • Corram 3 vezes por semana. Uma das melhores formas de tornar a corrida mais fácil tem a ver com a regularidade com que corremos. Isto não significa que têm de correr 5 km todos os dias. Em vez disso, vão com calma e escolham uma distância ou um período de tempo que seja fácil de concretizar 3 ou 4 vezes por semana, no máximo. Escolham dias específicos para o fazer (para ser mais fácil de relembrar), calendarizem-nos e sejam fiéis a este plano, pelo menos durante 1 mês (para começar está ótimo).
  • Estejam preparados. Tenham um saco de equipamento preparado no vosso carro ou no local de trabalho. Desta forma vão estar sempre preparados para as oportunidades que possam surgir diariamente para correr. Mesmo que sejam só 15 minutos, qualquer tempo de corrida é melhor do que não correr de todo e isso irá fazer a diferença nos vossos hábitos de corredor.
  • Correr 1 km em menos de 6 minutos. Se isto vos parecer impossível, estabeleçam um limite que vos seja mais realista. Não faz mal caminhar um pouco de vez em quando, mas cedo vão querer começar a trabalhar para correr este quilómetro em menos de 6 minutos.
  • Corram até ao topo da rampa. Encontrem uma rampa decente (ou comecem a trabalhar com inclinações na passadeira do ginásio) e façam uma primeira tentativa de correr até ao topo. Esta primeira tentativa vai puxar pelo coração e pulmões, portanto vão com calma e parem se tiver de ser. No entanto, com a regularidade, as pernas vão ficar mais fortes ao fim de algumas tentativas vão atingir o topo muito mais facilmente.
  • Corram em superfícies variadas. Misturar vários tipos de piso nas corridas traz vantagens aos músculos, tornando-nos corredores mais ágeis. Experimentem alternar entre passadeira, asfalto, trilhos ou mesmo areia. Tenham em conta no entanto que correr na areia fofa é bem mais difícil do que correr - por exemplo - numa passadeira. Portanto, sempre que a superfície for mais suave, corram numa passada mais lenta ou por um período de tempo mais curto.

 

À medida que vão seguindo os vossos planos de treino, tenham em consideração o que criam nas vossas vidas. Se têm alguma dificuldade em completar os treinos, em dormir tempo suficiente para recuperar, ou em encontrar tempo para todas as pequenas coisas que ainda têm para fazer, então convém parar e analisar o que podem mudar.

 

Se tiverem dificuldades com o processo, deixem um comentário ou contactem-me e verei no que posso ajudar. Bons treinos!

Dom | 08.04.18

Correr, trabalhar e meditar

José Guimarães

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O escritor, editor, aventureiro e explorador Erling Kagge disse que "não é preciso muito para entender o silêncio e o modo como podemos ter prazer em desligarmo-nos do mundo (...) é algo que o coração sempre soube".

 

Falar sobre as coisas do coração é uma tarefa difícil. Tal como quando tentamos captar numa simples fotografia a beleza de uma paisagem que se abre à nossa frente, também é difícil traduzir por palavras aquilo que num momento especial sentimos dentro de nós. Dentro do nosso silêncio. "As palavras geram limites", diz Kagge. E soa um bocado a desperdício falar sobre aquilo que não se consegue falar. Parece que estraga o momento. Como quem diz que é impossível e totalmente inútil correr contra os limites da nossa linguagem.

 

Mesmo assim, vou arriscar e tentar descrever o que é este prazer que me invade quando, além de trabalhar, também corro. E, quando ao correr, também medito. E, quando ao fazer tudo isto, encontro a forma certa de afastar o meu cérebro da rotina do caos e de lhe dar o caminho para se poder reencontrar novamente.

 

No mundo em que vivemos, tão cheio de distrações, torna-se muito fácil desfocarmo-nos de quem somos, ou de quem gostamos de ser. Claro que todos teremos os nossos afazeres, as nossas bocas para alimentar e os sacrifícios que daí advêm. Mas num mundo cada vez mais poluído por tanta coisa que, se formos ver bem, não necessitamos, é importante relembrar que um dia chegaremos ao tal momento em que vamos olhar para trás e perceber que, ou fizemos, ou deixámos por fazer aquilo que mais desejávamos fazer. Como subir a uma montanha. Ter um filho. Velejar através do oceano. O que for. Não o fizémos porque nos deixamos levar por outras coisas que não interessavam. Por ruído.

 

Isto leva-me de volta ao início dos meus tempos nas corridas, recordando que comecei a correr porque a vida que levava antes não me fazia muito sentido. Dessa forma, um dia experimentei e conscientemente optei por começar a fazer mais vezes as coisas que sentia que me traziam felicidade e me levavam para longe do tal caos. Essa felicidade traduzia-se simplesmente em deixar-me ir e não pensar em mais nada a não ser naquele momento. Um momento em que me desligava do mundo. Não no sentido de não me interessar o que nele se passava, mas um desligar no sentido de me sentir como se fizesse parte das coisas que, naquele momento, mais importavam e que podiam ser as mais simples: o nascer do sol, o vento fresco na cara, o cheiro do mar. Ou o som do meu coração a arfar enquanto subia uma colina. Sim, correr trouxe-me desses momentos. De uma forma um tanto ou quanto inesperada, trouxe-me momentos em que podia estar comigo próprio, com os meus pensamentos mais íntimos, ou até sem pensamentos de todo. Trouxe-me o silêncio que eu necessitava e a capacidade de perceber onde me sinto bem.

 

Quando as coisas se começam a ligar, naturalmente surgem as inevitáveis analogias. Se trabalho naquilo que gosto, sinto-me como se não estivesse a trabalhar de todo. É como quando corro. Pode estar a custar, mas o prazer que advém daquele momento é maior do que qualquer esforço físico que esteja a fazer. Não sinto que esteja a fazer um sacrifício e faço-o com prazer. E isto faz-me sentir em sintonia. E em paz comigo próprio. Comigo e com o que me rodeia. E esses são para mim os meus momentos de meditação. Os momentos em que me permito descobrir os verdadeiros cantinhos de mim próprio.

 

Esta não é uma fórmula mágica. Duvido que esta exista, até. Felizmente, certamente cada um terá a sua forma de a encontrar e de se encontrar. É importante que cada um descubra o seu próprio Caminho. O meu começou a correr. Só temos que experimentar e escutar o coração!

 

O excerto inicial retirado do livro "Silêncio na Era do Ruído", de Erling Kagge, recomendado pelo meu amigo Pedro Guedes, alpinista e instrutor na empresa Espaços Naturais, durante a expedição que fizemos ao Toubkal na semana passada.