O que acontece ao corpo durante um Ironman

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Foto: weszlo.com

O Ironman é uma das (só uma das) mais difíceis provas de endurance que existem. Para os melhores atletas, a prova dura cerca de 9 horas, sendo que, para a maioria dos participantes, prevê-se geralmente mais de 12 horas, carregadas de um grande desgaste físico e mental.

É muito frequente vermos desistências num Ironman, tal é a sua dureza. E claro que há muitas provas duras, como as ultra maratonas e os ultra-trails. Mas um Ironman torna-se particularmente agressivo, pois junta 3 modalidades (natação, ciclismo e corrida) numa só prova. Se um triatlo já é duro, um Ironman não tem palavras.

Há 3 anos completei o meu primeiro half ironman e, este ano, estou a meio do meu plano de treinos para finalizar o meu primeiro Ironman!

Numa das muitas das pesquisas que eu faço na internet, encontrei um excelente artigo sobre como o corpo humano reage durante esta prova, que aqui partilho convosco. Espero que vos seja tão útil para vocês como foi para mim, para perceber então o que é que – fisiologicamente falando – está por detrás de tanta dificuldade física:

Dentro das mitocôndrias, as moléculas de glicose e triglicerídeos são processadas a um ritmo alucinante, produzindo gás carbónico, água e energia. O oxigénio penetra nas membranas das células musculares causando uma deterioração comparável ao envelhecimento de 20 anos em 10 segundos.

As alterações iniciam-se antes mesmo da partida. A ansiedade causada pela mera antecipação de uma prova deste calibre aumenta o fluxo sanguíneo, bem como o consumo de oxigénio e a libertação de hormonas, incluindo epinefrina (adrenalina), que ativam os músculos para a atividade.

Quando a prova começa, o estado bioquímico muda de acordo com a modalidade: natação, ciclismo ou corrida. Os maiores desafios fisiológicos são a regulação da temperatura corporal, desidratação, fornecimento de combustível, lesão muscular, a absorção de nutrientes e o processamento da fadiga cerebral.

Nos dias quentes, quase 3/4 da energia muscular produzida assume a forma de resíduos de calor que se acumulam nos músculos, causando danos graves. O corpo combate este aumento de temperatura transpirando mas, ainda assim, cria desaceleração e obriga-o a mexer-se mais devagar. “Entre os 10 a 20% da prova, a temperatura do núcleo aumenta de forma relativamente rápida”, diz Jonathan Dugas, Ph.D., fisiologista na Universidade de Chicago. “Pode subir para 37,5 a 38,75º graus.”

Mas este mecanismo de autoproteção pode falhar se o cérebro se tornar mais quente. Quando isso acontece, o sistema nervoso central começa a funcionar mal e o atleta fica tonto, desorientado, sem coordenação, e pode entrar em colapso.

O atleta queima entre 6.000 a 10.000 kcal, provenientes de gorduras armazenadas no tecido adiposo e no tecido muscular, de glicogénio armazenado no fígado e músculos, dos aminoácidos libertados a partir da quebra de proteínas musculares e calorias ingeridas durante o evento, geralmente sob a forma de hidratos de carbono. A meio da corrida (parte final da prova), o glicogénio muscular atinge níveis críticos nos gémeos, quadricípetes e isquiotibiais. A contribuição total de carbohidratos continua a cair e a gordura aumenta a oxidação. A incapacidade de fornecer energia suficiente para os músculos é uma das principais razões pelas quais os que não treinam para um Ironman não o conseguem completar. A resistência é limitada pela disponibilidade de glicogénio no fígado e nos músculos.

Alguns atletas demonstraram que, depois de terminar um Ironman, é possível uma perda de 2,5 kg de massa corporal total. Como também está estimado que os triatletas masculinos de um Ironman gastam cerca de 10.000 kcal por prova e ingerem cerca de 4.000 kcal, isto resulta num défice de energia de cerca de 6.000 kcal. Assim, a energia fornecida por ingestão nutre em cerca de 40% da energia total despendida, ficando mais de metade a cargo do combustível endógeno.

O stress do tecido muscular pode ser o maior desafio. Um vasto número de células musculares morrem ou são danificadas. A principal causa de lesão muscular é mecânica e causada principalmente pelas contrações musculares excêntricas.

A reta final de um Ironman

Quem já completou um Ironman, sabe que os últimos quilómetros são uma experiência única. O simples acto de levantar uma perna para dar o próximo passo é semelhante a executar um agachamento pesado. Uma pesquisa do Instituto Nacional do Desporto e Educação Física de Paris, confirma que o gasto energético de correr no final de um triatlo simples é significativamente maior do que apenas correr sem natação e ciclismo, agora imaginem num Ironman.

O pós-prova

São necessários alguns dias para o corpo recuperar. Estudos revelam que os bio-marcadores de lesão muscular e inflamação permanecem significativamente elevados durante quase três semanas. O sistema imunológico desempenha um papel importante na recuperação após o exercício exaustivo, mas ele próprio é dominado pelo stress da corrida. A função imunitária fica reduzida durante as 72 horas seguintes, aumentando consideravelmente a suscetibilidade do atleta para infeções virais e bacterianas.

É comum o aparecimento de sintomas de depressão de humor nas semanas após um Ironman, conhecida como “post-race blues”, provavelmente mais um sintoma da síndrome de overtraining, conhecido por perturbar os neurotransmissores cerebrais que influenciam o humor.

Factos positivos

Todos os triatletas sabem que a prática regular de massagens desportivas é um fator positivo diferenciador, quer na fase de preparação, quer na recuperação pós-evento.
Os benefícios são muitos e variados importando realçar a sua eficácia na redução do período de recuperação muscular aos danos sofridos e na capacidade de melhoria da performance desportiva.

Fontes: Vive o Desporto

Institute of General Practice and for Health Services Research, University Hospital, Zurich, Switzerland
Speedy DB, Noakes TD, Kimber NE, Rogers IR, Thompson
JM, Boswell DR, Ross JJ, Campbell RG, Gallagher PG,
Kuttner JA. Fluid balance during and after an Ironman triathlon.
Clin J Sport Med. 2001;11:44-50.
Kimber NE, Ross JJ, Mason SL, Speedy DB. Energy balance during an Ironman triathlon in male and female triathletes.
Int J Sport Nutr Exerc Metab. 2002;12:47-62.

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Depois de longos anos sem praticar desporto, redescobri esta minha paixão pelo exercício físico em 2011 através da corrida. Na altura, quando treinava para conquistar a minha primeira maratona, criei o blog De Sedentário a Maratonista, para partilhar os meus progressos e dificuldades. Depois dessa meta atingida, descobri no trail running e nas ultra-maratonas uma paixão que nunca mais deixei e que ainda hoje me faz sonhar com novas e mais ousadas aventuras. Duas vezes "finisher" do UTMB - Ultra Trail du Mont Branc e com um Ironman na mira, esta é a minha forma de fazer chegar a mais pessoas o prazer que tenho por uma vida ativa e mais saudável, e de as motivar a, também elas, perseguirem os seus sonhos. Porque a motivação também se treina!

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