Setúbal Triathlon: o dia dos homens (e mulheres) de ferro!

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Fotografia: Pau Storch Photography

Se há coisa que eu não gosto numa prova de meia dúzia de horas é ter pouco mais de meia dúzia de pessoas a apoiar os participantes. Nas provas de trail running, que pratiquei nos últimos anos, correr em locais isolados e em condições muitas vezes impróprias para consumo tem destas consequências. Faz parte dos treinos até. No entanto, numa prova urbana, que tantas limitações traz à rotina diária da população local, torna-se particularmente importante saber aproximá-la do público. Fazer com que este se sinta parte do evento e, também, parte do sucesso de quem nele participa é uma característica que, felizmente, vejo crescer entre nós (mesmo assim o público parece ainda ter medo de gritar e aplaudir) e foi o que vi e experimentei ontem durante o Setúbal Triathlon.

O que é o Setúbal Triathlon?

O Setúbal Triathlon é uma prova de triatlo, a primeira organizada pela HMS Sports, na distância de “half ironman”, ou seja, metade da distância de um Ironman. São 1,9km a nadar, 90km de bicicleta e 21km a correr.

Já agora, relembrar que o meu objetivo para este ano é concluir o meu primeiro Ironman, prova marcada para 20 de agosto de 2017, em Copenhaga.

Ontem, o meu objetivo consistia em fazer a prova integrada no meu plano de treinos, no melhor ritmo possível, mas sem me estragar muito, quer na bicicleta (já que praticamente 1/3 do percurso era a subir e a descer a serra da Arrábida), quer na corrida, onde deveria ser capaz de manter um ritmo médio interessante.

Os nervos

São muitos! Enfrentar algo que não se pratica frequentemente cria uma camada de nervos em qualquer um. A começar por uma semana cheia de trabalho e pouco dormida (bem vindos ao mundo de quem faz desporto e ainda tem que gerir uma vida, hehehe!!!), uma noite a rebolar de um lado para o outro e uma manhã que começou às 5h00 a confirmar material para a prova, saí de casa com o estômago meio embrulhado e a pensar se me teria esquecido de alguma coisa. Não foi o caso.

Já agora, convém deixar a dica que, para estes casos em que não conseguem comer o que deviam antes de uma prova, não devem deixar de ingerir carbohidratos. A melhor forma é mesmo líquida, já que não pesa no estômago e é logo absorvida, e há inúmeros produtos (suplementos) no mercado que permitem que vão hidratando qualquer coisa e, em simultâneo, alimentem o corpinho.

Já no local da prova, a hora que antecede a partida é normalmente passada a fazer as últimas verificações técnicas na bicicleta, a distribuir o material pelos sacos das diferentes transições e a vestir o equipamento de natação (e a colar os “kalkitos” com o nosso número de dorsal nos braços… obrigado Zé Carlos, ficaram tão bem colados que ainda hoje estão gravados na pele!), antes de nos lançarmos à água, para um primeiro contacto com a frescura matinal e o devido aquecimento.

A nadar

Aqui nada de especial, a não ser a corrente que já se fazia sentir, a maralha habitual que até nem estava muito violenta, a frequência cardíaca a subir… enfim, nada de especial, portanto.

Nadar numa prova de triatlo é resultado de muito treino na piscina. O que quer dizer que, quem treina bem na piscina, quando nada com a flutuabilidade de um fato e da água salgada, faz praticamente tudo o que quer na prova.

Este primeiro segmento consistia em 2 voltas a um circuito retangular, com a particularidade de, entre a primeira e a segunda volta, os atletas terem que sair da água, contornar uma bóia na praia e voltar a entrar na água. Mais uma vez, um bom ponto de contacto com o muito público presente a assistir na muralha da praia e na areia, para permitir que estes reconheçam o atleta que acompanham e torçam por ele.

A pedalar

Depois da natação, feita a transição com as habituais tonturas (não me livro deste trauma), soube bem começar a pedalar e apanhar o ar fresco da manhã, ainda pouco passava das 8h35.

As maiores dificuldades e a grande incógnita para muitos participantes neste Setúbal Triathlon estavam do lado do percurso que percorria a serra da Arrábida, até à zona do Portinho da Arrábida. Duas das muitas subidas faziam-se ao longo de 1.200m uma, e 1.900m outra, o que, a somar ao vento que se fazia sentir na reta para o lado da Mitrena e no Alto da Guerra, podia começar a fazer rebentar as primeiras pernas logo ali. E não esquecer que ainda havia uma meia maratona para fazer depois disto.

Assim, o meu ritmo foi feito entre uma gestão cuidadosa daquilo que ingeria (hidratar muito e tentar consumir pelo menos 50gr de carbohidratos por hora) e do que pedalava, resguardando-me um pouco quando o vento soprava contra e aproveitando quando este estava a favor. Nota aqui para o gozo que é pedalar a quase 50km/h, encaixado na posição mais aerodinâmica possível e rezando para não apanhar nenhum buraco na estrada. Se bem que até estes tinham sido devidamente assinalados pela organização, ao longo de todo o percurso.

Contrastando entre estes troços rápidos e a lentidão do percurso na serra, gostei de chegar ao fim com uma média de quase 30km/h, ainda com tempo para, numa ou noutra passagem pela cidade, acenar a quem me tentava apanhar num ou noutro vídeo :)

A correr

Outra particularidade interessante nesta prova foi o facto da primeira transição (natação-ciclismo) e da segunda transição (ciclismo-corrida) serem feitas em sítios diferentes, muito ao jeito de um Ironman. A segunda transição era feita na cidade, praticamente ao lado da zona da meta, o que permitia que praticamente toda a gente pudesse assistir, também aqui, ao desempenho dos seus atletas favoritos.

Entregue a bicicleta e vestido o equipamento de corrida, a saída para a meia maratona fez-se em ritmo muito acelerado. Acelerado demais, até. Sou apologista de começar uma corrida desta distância de forma mais lenta, para guardar energias para o final. Mas aqui confesso que me excedi e, como consequência, tive uma linha de ritmo médio descendente, mas nem assim com um ritmo médio final mais lento do que tinha programado fazer:

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Mais uma vez, a organização esteve de parabéns, pois graças a ela pude ouvir a Inês a gritar “COME!!!” vezes sem conta e, graças a ela (a Inês), não me esquecia de ingerir 2 saquetas de gel em cada volta de 5km, acompanhadas por um pouco de água ou de isotónico, conforme o estado.

Nada faltava nos postos de abastecimento e a distância entre ambos era mais do que suficiente para não ter que levar nada nas mãos. Tinha um gel no cinto porta-dorsais, mas por esta altura estava já tanto calor que optei por não desafiar a sorte e não o consumir àquela temperatura…

Sendo assim, foi encontrar o melhor compromisso entre forma e ritmo, não esquecendo a ingestão de combustível, o adequado para chegar à meta, não em estado de falência total (não era esse o meu objetivo), mas num estado em que pudesse considerar que sim, tinha sido um bom treino – lá está – rumo ao meu objetivo principal: o Ironman.

O final

Participar nesta prova tinha um objetivo e, tal como já disse, foi cumprido. Deu para perceber muitas coisas: o que tem funcionado melhor e pior nos treinos, o que ainda tenho que melhorar (por exemplo, técnicas para nutrição na bicicleta, principalmente na bicicleta), etc. Deu para perceber outras coisas também. Menos técnicas, com certeza, mas que também têm a sua quota parte de influência neste caminho.

Deu para perceber que os amigos fazem parte do “doping” permitido e que, sem eles, o desafio seria maior.

Deu para perceber que receber forças de quem está de fora é importante, e que retribuir também nos dá forças a nós. Nem que seja com um passinho de dança nos cones de retorno da corrida…

Deu para perceber que treinar com malta focada e que veste as mesmas cores, nos coloca a todos no mesmo barco e nos dá um rumo mais certeiro. Obrigado Oriental Triatlo!

Deu para perceber quem é que percebe (desculpem a redundância) destas coisas de organizar provas.

Deu para perceber que, nos desafios, sejam eles de desporto (como é o caso) ou de outra natureza, é importante estarmos com quem mais gostamos de partilhar as nossas vidas. Porque eles também correm de um lado para o outro, também se cansam, também apanham escaldões. Tudo para estar lá para nós e festejar connosco. Obrigado a ti!

Finalmente, uma nota especial a todos os que aqui fizeram o seu primeiro “half ironman”, em particular a uma pessoa que o acabou com o maior sorriso e boa disposição que já vi nestas provas. Parabéns Zé Carlos, já és metade de ferro!!!

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Depois de longos anos sem praticar desporto, redescobri esta minha paixão pelo exercício físico em 2011 através da corrida. Na altura, quando treinava para conquistar a minha primeira maratona, criei o blog De Sedentário a Maratonista, para partilhar os meus progressos e dificuldades. Depois dessa meta atingida, descobri no trail running e nas ultra-maratonas uma paixão que nunca mais deixei e que ainda hoje me faz sonhar com novas e mais ousadas aventuras. Duas vezes "finisher" do UTMB - Ultra Trail du Mont Branc e com um Ironman na mira, esta é a minha forma de fazer chegar a mais pessoas o prazer que tenho por uma vida ativa e mais saudável, e de as motivar a, também elas, perseguirem os seus sonhos. Porque a motivação também se treina!

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