Como eu quase não fui ao Trail Noturno da Lagoa de Óbidos

Como eu quase não fui ao Trail Noturno da Lagoa de Óbidos

Que me desculpem a organização do UTNLO e todos os defensores desta prova. Apesar de não saberem, nos últimos tempos foram muitas as vezes que afirmei que não ia gostar de correr em Óbidos. Na verdade, depois de algumas aventuras, de ter passado por alguns azares, ou mesmo com a Troika continuar a querer contribuir negativamente para a minha poupança, necessária à participação nestas corridas de norte a sul do país (e quem sabe um dia além-fronteiras), certo é que comecei a inventar desculpas para não ir ao Ultra Trail da Lagoa de Óbidos. Ainda pensei na possibilidade de só ir fazer o trail (metade da distância), mas finalmente decidi-me por ir e atacar os 50 km… e aquilo que aparentemente seria “sempre a mesma coisa”, afinal até se revelou uma prova com um gostinho tão particular quanto especial!

Há quase 1 ano nos trails

Quem me conhece sabe que eu gosto de provas com pedras, buracos, descidas a pique para voar, subidas dignas de escalador com “pés-de-gato”, atravessar rios a nadar e correr com os pés molhados até ficarem cheios de bolhas (mentira!). Desde que comecei a correr fora de estrada (vai fazer dia 23 de Outubro exactamente 1 ano) que sinto frequentemente dentro de mim algo que me chama para a altitude, para o frio, para as aparentes dificuldades em ultrapassar grandes obstáculos, só porque à primeira vista parecem barreiras intransponíveis. Neste fim de semana as dificuldades foram outras, mas existiram.

Como é correr em Óbidos

Em primeiro lugar, tanto o CAOB – Clube de Atletismo de Óbidos como todos os que participaram na organização do UTNLO – Ultra Trail Noturno da Lagoa de Óbidos estão de parabéns. Para quem não conhece, esta prova consiste em correr 50 km (ou 26 km para o trail) por  trilhos em redor de Óbidos, partindo às 21 horas dentro das muralhas da vila e percorrendo locais como a Lagoa de Óbidos ou a praia. Até se poderia dizer que as vistas são magníficas (porque naquele local – de facto – são), não fosse o caso da corrida ser à noite e não dar para ver grande coisa, à excepção daquelas dezenas de metros que a luz do frontal ilumina à nossa frente. Contudo, não me vou esquecer tão cedo das sombras provocadas no vazio das arribas em cima da praia, ou mais ainda: da verdadeira “auto-estrada” em redor da lagoa, formada pelas centenas de luzes dos atletas que ainda vinham na outra margem.

Afinal porque é que eu não iria gostar de correr em Óbidos? Porque esta prova aparentava ser composta por estradões e trilhos rápidos, ou seja, na minha ideia seria praticamente como correr 50 km numa estrada esburacada (parecida com o troço de estrada entre Alcácer do Sal e Grândola que corri na Ultra Maratona PRO RUNNER), com um desnível mínimo e com a mochila de hidratação a pesar nas costas. Não podia estar mais enganado. Que a prova é rápida, não há dúvida que sim! Mas se à rapidez aliarmos a alguma complexidade de alguns troços, então o resultado final só pode ser muito bom (para quem gosta destas correrias, está claro).

Em ritmo acelerado

Depois da partida simulada, cujo objectivo foi fazer os corredores percorrerem nas calmas a rua principal (medieval?) da vila da Óbidos e interagir um pouco com o olhar e comentários dos visitantes intrigados, na sua grande maioria turistas, a concentração e partida oficial fez-se às portas da vila. Quem está no meio dos outros atletas não tem noção, mas pelo que já tive oportunidade de ver em fotos e vídeos, era muito o mar de gente que partiu por volta das 21h30 rumo ao escuro. O início foi assim um pouco complicado de se fazer, devido ao muito pó levantado pelo número de atletas que corria naquela posição. Talvez por isso eu e o Luís optámos por correr e correr bem logo ao início (lembro-me dele a olhar para o relógio e a dizer que estávamos a correr a uma média de 4:30/km), aproveitando as descidas iniciais para tentarmos deixar o maior número de pessoas para trás e dessa forma podermos gerir o resto da prova ao nosso ritmo, mais tranquilo e com um ar decente para respirar.

Como deu para aquecer facilmente ao início da prova, depois foi uma questão de manter o ritmo até onde foi possível. E tirando uma ou outra subida, nunca muito íngremes ou longas, a primeira zona onde não foi possível – de todo – correr foi já na fase final da lagoa, porque além dos canaviais nos taparem quase completamente a visibilidade para os pés, aquilo em que pisávamos aparecia cada vez mais mole e instável… e daqui até chegarmos ao lodo foi um instantinho. Sim, lodo! Que mais seria de esperar, nas margens de uma lagoa como esta, certo? Mas mais do que amaldiçoar a organização por estes percursos traiçoeiros, deixo os meus parabéns por algo nunca dantes experimentado: passar pelas águas amenas da lagoa, de seguida enterrar-me até às canelas no lodo malcheiroso e depois continuar a correr com pelo menos 1 kg a mais em cada pé, tem que se lhe diga. Muitos foram os tombos a que assisti e outros que ouvi falar, nas autênticas “ratoeiras” que aqui estavam escondidas. Dificuldades acrescidas? Eu chamo-lhe desafio!

Dificuldades encontrei na chegada à praia. Depois de 25 km percorridos, correr na areia mais fina e fofa da praia e nas dunas e arribas, num sobe e desce que às tantas nos parece interminável, cansa… cansa muito! Parece que a cada passo que damos, nos enterramos num solo que, em vez de nos ajudar a andar para a frente parece que nos suga a potência e a energia. Os músculos aquecem até quase à exaustão, os desequilíbrios constantes e a necessidade de atenção à orientação levam a que estes 5 km pareçam uma autêntica maratona. A dificuldade acresce quando a mecânica que normalmente nos faz correr é aqui remetida para segundo plano. E vêm à tona as dificuldades sentidas devido à falta de treino complementar ao treino de corrida: treino de ginásio, de força, as séries chatas e a pliometria (disse bem?). Mas trabalha-se para isso e o que é certo é que o ginásio, apesar de ainda ser pouco, tem feito as suas diferenças.

Depois desta zona e tirando a chegada ao castelo, poucos foram os momentos em que não deu para correr. Corri muito tempo sozinho, passando um ou outro atleta muito de vez em quando, cruzando-me com grupos de caminhantes de lanterna em punho e campistas que aqui e ali enchiam o ar com cheiro a petiscos e o espírito com a força das suas palavras de apoio. E muito agradeço ao Fernando Gomes, que foi a minha motivação para cerrar os dentes e não parar de correr nos momentos mais duros. Aquela t-shirt de “Instructor” com as palavras “Your workout is my warmup!” tem muito que se lhe diga amigo.

Ainda ficam umas palavras para a chegada ao castelo de Óbidos, que consistia em nada mais do que uma subida às muralhas, depois uma descida para se voltar a subir até à entrada na porta lateral das muralhas. Necessário? Não sei se há coisas necessárias ou não numa prova desta natureza. Não creio que seja isso que está em causa. Quem não se lembra da chegada ao castelo de Marvão, em que depois de se subir interminavelmente até à base das muralhas, se desce interminavelmente para depois se voltar a subir numa das subidas mais íngremes que tive o prazer de fazer numa prova de trail? Se não a mais íngreme, pelo menos a mais difícil, já que foi na altura da minha lesão no joelho, em que subi praticamente apoiado só numa perna com a ajuda dos bastões, contando cada centímetro, cada metro vencido… Mais uma vez, se era necessário? Talvez não. Mas como tantas vezes digo, se numa prova destas não há um “brinde” destes, se calhar depois também não teria tanta graça.

Na dúvida, corre-se!

Mas mais uma vez ficou provado que as ideias pré-concebidas podem muitas vezes deitar muitas coisas a perder. Se tivesse deixado que as dificuldades financeiras e os reveses da vida levassem a melhor, não sei se alguma vez iria compreender o que é correr o Ultra Trail da Lagoa de Óbidos. Provavelmente ficaria com uma ideia errada sobre a prova. Não me teria divertido como me diverti. Não me teria enchido de orgulho (o Ego, sempre o Ego) por ter concluído estes 50 km em 5h16 e ter terminado em 24º lugar. E provavelmente não ficaria com “o bichinho” de voltar no próximo ano, pronto para bater marcas, vencer dificuldades e abraçar amizades, neste desafio que é em tudo uma excelente prova de trail que respeita e dignifica uma zona única do nosso Portugal.

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Depois de longos anos sem praticar desporto, redescobri esta minha paixão pelo exercício físico em 2011 através da corrida. Na altura, quando treinava para conquistar a minha primeira maratona, criei o blog De Sedentário a Maratonista, para partilhar os meus progressos e dificuldades. Depois dessa meta atingida, descobri no trail running e nas ultra-maratonas uma paixão que nunca mais deixei e que ainda hoje me faz sonhar com novas e mais ousadas aventuras. Duas vezes "finisher" do UTMB - Ultra Trail du Mont Branc e com um Ironman na mira, esta é a minha forma de fazer chegar a mais pessoas o prazer que tenho por uma vida ativa e mais saudável, e de as motivar a, também elas, perseguirem os seus sonhos. Porque a motivação também se treina!

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